-INÍCIO​-

“Ah, encontrou o aquecedor de baquelite! É muito bonito.”

OBJECTOS COM

HISTÓRIA

Sempre tive um fascínio por velharias, as histórias que poderiam contar, a vida dos seus donos, a sua utilidade, a patine que ganham com o tempo.

As visitas a lojas de antiguidades sempre tiveram como propósito satisfazer o meu vício e a minha curiosidade. Sempre gostei de vasculhar entre prateleiras empoeiradas com aquele anseio de fazer uma nova descoberta de algo único e belo, algo que falasse ao meu âmago e sentido estético.

Numa dessas visitas, no meio de uma sala mal iluminada, de objetos esquecidos, empilhados até ao teto, reluzia algo no qual os meus olhos imediatamente se fixaram: tons de cobre embrenhados a negro. Estendi a minha mão entre os móveis apertados onde aquilo se encontrava preso e retirei com cuidado este objeto desconhecido. O dono da loja surge por detrás de mim e rapidamente resolve o mistério: “Ah, encontrou o aquecedor de baquelite! É muito bonito.”.

Fiquei sem saber o que fazer, eu não precisava de um aquecedor, não tinha nenhuma aplicação prática para ele, mas mesmo assim estava fascinado com ele. Senti que o tinha que ter. Guardei-o na minha arrecadação e apercebi-me da ironia do meu ato: comprei algo que já não tem utilidade e vai ficar esquecido numa sala escura e poeirenta. Tinha de lhe dar uma vida nova.

Achei que seria possível transformá-lo num candeeiro. Na minha oficina começou um rebuliço: a desmontar metodicamente, perceber as limitações, encontrar soluções técnicas. Estava quase num transe. Foram horas de trabalho investidas porque queria que ficasse perfeito e no fim, que nem um orgulhoso pai, ele era melhor do que eu podia esperar.

Depois de terminar ficou uma ânsia, um apetite por mais. Ao vasculhar a minha arrecadação descobri vários objetos esquecidos, desejosos de contar a sua história. Lentamente fui experimentando, criando e reavivando coisas que eu adorava e queria partilhar isso com todos.

Tudo por causa de um modesto aquecedor, a minha primeira criação, que hoje está (quase relutantemente) numa boa casa a viver uma nova vida, recuperado da escuridão do esquecimento.

© 2019 Todos os conteúdos por Filipe Ferraria